• Laura Stoppa

Tem que ter orgasmo?

Hoje em dia muitos estão à procura da perfeição em todas as áreas da vida, a todo momento. A foto perfeita no Instagram, a maneira correta de se vestir, de se alimentar, de se relacionar, etc. No âmbito da sexualidade, o ápice dessa busca é o orgasmo. Será que, se não gozar, o sexo não "valeu"? Eu preciso explicar um negócio para vocês: nem sempre vai rolar orgasmo. E tá tudo bem.

O QUE É ORGASMO?


Primeiro, vamos entender: a Resposta Sexual Humana, estudada por profissionais como Masters & Johnson (1966) e Helen Kaplan (1979), entendia o orgasmo como uma das fases dessa resposta, sendo o ápice do prazer sentido durante a relação sexual. O modelo era, então, linear, ou seja, com começo, meio e fim. Nos anos 2000, Rosemary Basson propôs um modelo cíclico de compreensão da resposta sexual, especificamente feminina, argumentando que nem sempre a mulher sente desejo prévio à relação sexual e que pode ou não experimentar excitação e orgasmo conforme interage com a parceria.


Sim, os números de mulheres que nunca tiveram um orgasmo ou não conseguem chegar a ele com facilidade podem impressionar. No Brasil, estamos falando de 55,6% de mulheres que têm dificuldade em chegar até ele, de acordo com os resultados da pesquisa Mosaico 2.0 realizada pelo Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex)*. É bastante gente e existem muitos fatores para levarmos em conta ao tentarmos entender o motivo por trás dos números. Só que, mesmo com iniciativas - importantes! - como mais educação sexual e conversas honestas sobre o assunto, orgasmo não deveria ser visto como obrigação.


REDUÇÕES


Reduzir o sexo ao momento do orgasmo faz tanto sentido quanto considerar que relação sexual é apenas penetração. Precisamos ampliar nossa mente e definições para que compreendam diversos entendimentos do que é prazer e do que são constituídas as relações sexuais. Em resumo: dá sim para ter uma transa ótima sem necessariamente gozar.


Qualquer coisa que vire obrigação perde sua naturalidade, sua espontaneidade e pode virar apenas um item a ser riscado da lista. Algo que, se não acontecer, vai provocar muita frustração e um sentimento horrível de falha. E não vai ser bacana se criarmos ainda mais inseguranças e pressões em relação ao sexo, né?


QUANDO SÓ UM LADO GOZA


Contudo, vamos deixar um ponto bem claro: orgasmo não precisa ser obrigação, mas também não pode ser fonte de injustiça entre os envolvidos. O que isso quer dizer? Que não é justo que apenas uma pessoa tenha os holofotes durante a transa e só um lado se esforce para dar prazer. O prazer de todos os envolvidos importa. E, sim, isso independe de orgasmo. Mas a dedicação tem que ser o mais igualitária possível para que todos entendam que seu prazer é relevante e digno de ser reivindicado.


Ter uma relação sexual preocupando-se apenas com o prazer próprio, além de egoísmo, é

desmerecer e invalidar o direito da outra pessoa de ter prazer também - com orgasmos ou não.


TROCA E ENTREGA


Uma proposta: que tal, então, se exercitarmos não enxergar o sexo como um local de performance e competição? Sexo é momento de entrega e pressupõe trocas - de energia, de calor, de afetividade, de tesão, de fluidos. Que tal enxergarmos a relação sexual como uma troca que, quanto mais equilibrada, mais prazerosa pode se tornar?


E SE INCOMODAR?


Não ter orgasmos em algumas relações sexuais que foram, sim, satisfatórias e trouxeram prazer de outras maneiras é comum. Acontece. Bora lidar com isso.


Porém, se você sente muita dificuldade em atingir o orgasmo e isso traz um incômodo para sua vida, procure ajuda de um profissional da área médica ou de terapia sexual para descobrir se isso acontece por motivos físicos, emocionais ou ambos.


Do contrário, não deixe a busca pelo orgasmo perfeito atrapalhar seus momentos de prazer e intimidade nem impedir que você aproveite as tantas outras possibilidades que o sexo oferece.


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* Pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) realizada em sete regiões metropolitanas brasileiras com 3 mil participantes.

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