• Laura Stoppa

Virgindade: um conceito



Muitas dúvidas ainda pairando no ar sobre virgindade em pleno 2018. Então vamos lá resolver algumas questões cabeludinhas que podem estar atazanando vocês.


QUANDO UMA PESSOA AINDA É VIRGEM: UM CONCEITO


Quando ela nunca teve uma relação sexual. Pronto. A explicação é simples e curta assim.


AH, MAS E O HÍMEN?


Então, aqui a gente entra naquele "ovo ou galinha" do sexo. Veja, se o conceito de virgindade para qualquer pessoa é nunca ter tido uma relação sexual, por que para as mulheres - para variar um pouco - o negócio precisa ser diferente?


A primeira relação sexual não causa nenhuma mudança física permanente no corpo masculino. Entretanto, no feminino, essa pequena membrana que fica no canal vaginal, nosso querido hímen, causa um rebuliço tremendo em muitas sociedades há milênios.

UM POUCO DE HISTÓRIA


Em sociedades antigas, sem teste de DNA, era relevante garantir de alguma forma que os filhos eram do sangue do marido. Claro, era mais relevante para o homem. E como essas sociedades já eram patriarcais, a opinião dos homens claramente era a única que importava. Virgem era uma palavra utilizada apenas para as mulheres – os homens eram chamados “donzelos”.


A garantia da linhagem também tinha suas questões sociais e comunitárias: as crianças sabiam quem eram seus pais e carregavam consigo heranças genéticas, de linhagem e materiais. Essa questão de herdar o nome, por exemplo, já era uma das diversas tentativas humanas de driblar a morte, como mostra a historiadora francesa Yvonne Knibiehler em seu livro “História da Virgindade” (São Paulo: Contexto, 2016). A ideia de que seu corpo vai deixar de existir, mas que algo abstrato e simbólico como seu nome vai permanecer pode ser muito sedutora.


Então, como controlar essa linhagem garantindo sua “pureza”?


O GRANDE EQUÍVOCO


Utilizando a sabedoria citada acima, de que a relação sexual causa mudanças físicas nas mulheres – sim, o hímen de novo. As parteiras, celebridades e autoridades nas mais diversas sociedades até meados do século XIX, eram as responsáveis por “verificar” a virgindade das mulheres.


Some a isso as dimensões psicológicas e religiosas da sexualidade e teremos uma salada moral que incutiu na cabeça de muitos que a virgindade era um estado elevado de existência, de pureza e de virtude, sendo também associada à santidade em diversas religiões.


Encarar a virgindade como uma questão moral a ser defendida garantiu que ela não fosse verificada apenas anatomicamente, pelo hímen, mas também pelas condutas das virgens: afinal, de que adianta uma mulher com hímen, teoricamente pura, com atitudes promíscuas ou que já tenha experiência em outras práticas sexuais que não envolvam a penetração? Esse combo de moralidade e biologia efetivava o controle social sobre a sexualidade feminina.


Porém, o equívoco da época, provavelmente por desconhecimento, foi considerar que todas as mulheres eram iguais e possuíam himens idênticos, que se comportavam da mesma maneira quando houvesse penetração vaginal. Spoiler: não tá certo isso aí.


As coisas começaram a complicar um pouco para os defensores da virgindade como superioridade moral com o avanço das pesquisas e da medicina. Para começar, muitas vezes o rompimento da membrana do hímen não significa nem dor nem sangramento. Quando isso não acontecia, era comum o homem acreditar que a mulher não era mais virgem.


Depois, estudos chegaram a conclusões de que havia diversos tipos de hímen. Essa “demonstração de virgindade”, portanto, se mostrava cada vez menos efetiva. Entretanto, o poder simbólico da virgindade já estava consolidado.


TIPOS DE HÍMEN


O hímen tem origem na formação embrionária. Dizer que só é virgem uma mulher com hímen é o mesmo que dizer que as que nasceram sem hímen não são virgens. Porém, se a definição de não ser mais virgem é ter tido relação sexual, não faz sentido dizer isso de um recém-nascido, certo? Então bora lá conhecer os tipos de hímen:

  • Anular: o mais comum, com um furinho no meio que permite a passagem da menstruação.

  • Sem orifício: menos comum. Pode ser necessária cirurgia para garantir a passagem da menstruação e possibilitar relações sexuais com penetração, masturbação com introdução de objetos, etc.

  • Septado: tem uma pele no meio do furo. Pode só romper na relação sexual sem acontecer nada além disso ou pode ficar com uma pele penduradinha incomodando, que precisará ser retirada com uma pequena cirurgia – mas isso é bem raro, ok?

  • Cribriforme: possui diversos “furinhos” na membrana, por onde passa a menstruação. É mais resistente na relação sexual.

  • Complacente ou Elástico: muito mais difícil de ser rompido, pode inclusive nunca romper ou ir rompendo conforme a mulher tem relações sexuais com penetração.

MAIS ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

  • O hímen pode ser rompido com objetos sexuais, com a introdução de dedos na vagina e com o uso de absorventes internos, dependendo do tipo de hímen – essa última situação é bem menos comum, porque os absorventes costumam ter algo em torno de 1,5 cm de diâmetro e a entrada da vagina tem aproximadamente 2,5 cm.

  • Hímen não tem terminação nervosa, por isso não dói. O que pode doer e incomodar é o estiramento da vagina, seja na masturbação, seja na relação sexual.

  • Acidentes e atividades esportivas também podem romper o hímen.

  • Seu rompimento pode sangrar uma vez, várias vezes ou nunca sangrar. Se sangrar demais e de modo contínuo, procure auxílio médico.

Conclusão: o hímen é tipo o apêndice, um negócio no nosso corpo que não serve pra nada e que é resultado de anos e anos de evolução. Não protege nada, não previne infecções e não tem terminações nervosas. É só uma pelinha.


E a virgindade, por sua vez, é uma construção social, porque não há meios de comprovar a virgindade de alguém que não seja pela própria afirmação da pessoa.


ENTÃO, AFINAL, VIRGINDADE IMPORTA?


Como qualquer marco da vida, ela pode ter mais ou menos importância para cada pessoa. É claro que muita gente acha bacana querer que a "primeira vez" seja com alguém legal, que te respeite, com tesão mútuo e prazer idem.

O problema aqui está em romantizar isso e querer que SÓ aconteça se for assim. Idealizar demais pode fazer com que muita frustração apareça se qualquer coisa acontecer diferente na hora H - se doer demais ou se os envolvidos tiverem qualquer imprevisto, como dificuldade em manter a ereção, ejaculação precoce ou falta de lubrificação.


Manter-se virgem ou não é uma escolha individual.

Hoje usamos o termo para homens e mulheres e seu significado tomou a abrangência descrita no começo do texto, relacionada à experiência sexual. Há quem se considere virgem já tendo feito, por exemplo, sexo oral ou anal. Há quem só considere que virgindade é quando uma pessoa nunca teve nenhum contato sexual.


Essa possibilidade de personalização do conceito é uma particularidade do nosso tempo. O TRANSEMOS volta a enfatizar algo que é muito importante para esse site: sexo é bom quando, em primeiro lugar, é bom para você. Não de uma maneira egoísta, mas sim de autocuidado. Em segundo lugar, deve ser bom para as outras pessoas envolvidas e não ferir física ou psicologicamente a nenhum ser humano. Por isso, se ser ou permanecer virgem é algo relevante na sua vida, ótimo. Se não é, ótimo também. Respeitar a si mesmo é um ingrediente vital para a construção de uma vida sexual saudável, seja com relações sexuais ou não.