• Laura Stoppa

Newness, monogamia e relacionamentos abertos


O casal Martin e Gabi | Imagem: reprodução

Aplicativos de relacionamento. Millennials. Sexo casual. Relacionamento aberto. A combinação de elementos da sinopse de “Newness” (EUA, 2017, Drama) juntava muitos dos temas que são do meu interesse e foco das minhas leituras e estudos já há algum tempo. Ao ver o trailer, fiquei com tanta vontade de assistir quanto com receio de que o longa descambasse para os clichês dos elementos citados.


Para ter seu certificado de filme-Millennial, a fotografia é muito bonita e o longa parece se passar sempre num filtro do Instagram. O elenco é majoritariamente jovem e lindo, como bons habitantes de uma Los Angeles sempre famosa pelo senso estético - ou seja, bem dentro do padrão de beleza dos tempos atuais.


Um monte de gente confusa, com vários desejos contraditórios e atitudes muitas vezes opostas às próprias vontades, tentando fazer as coisas “darem certo”. Para mim esse é um resumo de uma geração que tem que existir em um contexto de excesso de estímulos, muitas vezes com a vontade de estar em um relacionamento sem se fundir com a outra pessoa - o que acaba endossando a fama de individualistas, egoístas e imediatistas e vai de encontro aos dados que demonstram que, na verdade, é a geração que menos faz sexo desde os anos 20.


Refletir sobre “dates ruins”, sobre o apego que pode se tornar quase viciante aos likes e matches do mundo dos aplicativos e sobre as diversas formas e possibilidades de arranjos afetivos é super válido em um mundo em constante mudança. Relacionamentos não-monogâmicos não são novidade, mas permanecem tabu. Há pouco tempo começaram a ser debatidos com maior seriedade e vistos por uma parcela crescente de pessoas como opção válida ao modelo propagado como única possibilidade possível e sustentável: a monogamia.


O enredo é basicamente um casal heterossexual que se conhece através de um aplicativo e, após um tempo se relacionando, decidem não ser mais monogâmicos. As personagens secundárias valem o destaque, pois a todo momento funcionam como consciências externas dos protagonistas: o amigo casado monogâmico e pai de um bebê, o terapeuta de casal, o homem mais velho e cético que é “alvo” da protagonista em certo momento e a autora de um livro que é central para a melhor cena do filme. Essas perspectivas fazem a vez do espectador também, trazendo questionamentos que podem surgir ao ver o desenvolvimento do relacionamento do casal. Dúvidas muito comuns quando confrontamos a monogamia, como o ciúme, que provoca muita curiosidade, num sentido quase como: “mas como raios você supera isso que eu não consigo evitar?”


Questionar modelos e buscar o que faz sentido para você é ótimo, é saudável. Entretanto, qualquer modelo de relacionamento pede maturidade, intimidade, confiança, respeito, e honestidade - seja ou não uma relação monogâmica.

A grande dificuldade está em desvencilhar amor de apego. Particularmente, acho que é por isso que muitas das discussões sobre não-monogamia acabam em debates sobre ciúme. Ciúme nada mais é do que uma projeção imaginativa de uma possível traição baseada em um sentimento de posse - o “outro”, que é “meu”, pode “me” trair. É egocentrismo demais pensar que outro alguém pode nos pertencer, mesmo em uma monogamia. A segurança de um relacionamento monogâmico muitas vezes está nessa sensação ilusória de estabilidade, de não-solidão, até o momento em que muitos percebem que é possível, sim, estar só a dois. O problema, então, é a traição ao que foi combinado - o que fere e destrói muitos relacionamentos.


“A conversa sobre infidelidade e a conversa sobre relacionamentos abertos não são as mesmas. Porque a essência da infidelidade é o segredo. Ela é organizada ao redor do segredo. O conceito de relacionamento aberto é que a sua exploração com outras pessoas não seja segredo”, diz a personagem da autora do livro. É querer demais unir em um só relacionamento, em uma só pessoa, isso que ela chama de “casamento improvável entre o sentimento de pertencer e o sentimento de liberdade”?


Hoje buscam-se parcerias afetivas que também precisam ser parcerias sexuais. Uma mesma pessoa precisa incorporar a missão de ser um grande amigo ou amiga, um grande amor e o melhor sexo da sua vida. Às vezes, essas buscas frustram porque vão ser encontradas em diferentes corpos. E partimos então em busca de soluções para perceber que não é possível ter tudo e que colocar uma pressão de perfeição bizarra em apenas um ser humano pode ser apenas injusto.


Não dá para construir nenhum tipo relacionamento no impulso, na pressa, sem cuidado e nem tomar a decisão de “abrir” um namoro ou casamento para “consertá-lo”.

Pode ser que para alguns o filme passe a mensagem “relacionamento aberto não dá certo”. Acredito que seria uma conclusão reducionista. Eu adicionaria uma ressalva: relacionamentos - abertos ou não - não dão certo quando feitos de qualquer jeito, sem reflexão nem maturidade e com pessoas que não estão preparadas para lidar com o que aquele acordo significa.


Não-monogamia não é para todos. Monogamia também não. Pegar uma experiência individual para dizer que se funciona ou não é generalizar. As pessoas, relacionamentos e situações são particulares demais para tratarmos como regras. Pular daí para a conclusão de que apenas um modelo funciona, no entanto, me parece no mínimo um equívoco.


“É preciso ter coragem para amar alguém”, diz o terapeuta do filme. E é preciso de mais coragem ainda para ser honesto, conosco e com os outros, sobre nossos verdadeiros desejos.

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