• Laura Stoppa

Vida sexual na gravidez | por Clarissa Huguet


Esse mês eu convidei minha querida amiga Clarissa Huguet, do Sexualize-se, para escrever para o TRANSEMOS sobre vida sexual na gravidez. Para ficar mais interessante para os leitores do site, ela propôs um relato na 1ª pessoa! Confiram o resultado abaixo. Eu adorei e com certeza vocês também vão curtir!

- Laura


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Quando surgiu o pedido da queridíssima Laura Stoppa para que eu escrevesse sobre vida sexual durante a gravidez, um sorriso brotou no meu rosto. Como sexo durante a gravidez continua sendo um grande tabu - mais um - eu curti mais ainda o convite e a chance de esclarecer algumas coisas e falar sobre a minha experiência.


Recordei-me da intensidade daqueles nove meses, da sensação indescritível de ter um ser crescendo e dando cambalhotas dentro do meu ventre, do corpo mudando, da ebulição de hormônios, das mudanças de humor (não tão agradáveis, às vezes…) e, naturalmente, da minha vida sexual durante este período.


Felizmente, minha gravidez transcorreu da melhor forma possível e não houve qualquer contraindicação médica para que eu e meu marido continuássemos com a nossa vida sexual como antes. Assim, eu dividiria meu apetite sexual em três fases durante a minha gravidez:


Primeiro trimestre


No primeiro trimestre, eu poderia ter ganhado o apelido de “mulher sono”. Eu sentia um sono indescritível durante o dia. Esta sonolência é provocada pelo aumento nos níveis de progesterona, fenômeno normal na gestação. Esse hormônio feminino ajuda a controlar seu ciclo reprodutivo e o seu aumento causa uma exaustão incomum em atividades antes consideradas normais no seu dia a dia. O paradoxal é que, apesar de a progesterona fazer você ficar morrendo de sono durante o dia, à noite o hormônio atrapalha seu sono, o que por sua vez faz você ficar ainda mais sonolenta no dia seguinte. É um círculo vicioso praticamente inevitável. Meu conselho é: não perca nenhuma oportunidade para um cochilo.


Outra questão complexa neste início é a vontade constante de fazer xixi. O crescimento do útero acaba pressionando a bexiga e faz com que a mulher vá ao banheiro inúmeras vezes, inclusive no meio da noite. Assim, sendo honesta, não sobrava muita disposição para o sexo. Além disso, muitas mulheres enjoam demais no primeiro trimestre (não foi o meu caso, eu não enjoei durante a minha gravidez, apenas tive muita azia no último mês).


Segundo trimestre


Já o segundo trimestre… ahhhh, que delícia! Além de a barriga já estar num lindo tamanho e o corpo já sentir completamente o ser humano que está se formando ali, o que é mágico, a vontade de transar e ter todo tipo de intimidade com meu parceiro se transformou e ficou ainda maior do que antes da gravidez. A barriga ainda permite uma variedade de posições - o que ajuda apimentar a vida sexual. Também conseguimos fazer uma viagem de 20 dias a Portugal, o que foi extremamente afrodisíaco.


Terceiro trimestre


O terceiro trimestre já foi mais complexo, pois eu estava muito pesada e meu filho nasceu pélvico, o que foi determinante para um final de gravidez complicado por conta de dores que eu sentia em decorrência da pressão que a cabecinha dele exercia sobre meus órgãos. Quando eu já estava na 38ª semana e a cesárea foi definida para a segunda-feira próxima, tendo em vista complicações nesta reta final, eu e meu marido mantivemos relações sexuais durante todo o final de semana a fim de tentar fazer o bebê virar, e finalmente, encaixar. Isso não aconteceu, mas tivemos um final de semana recheado de amor, carinho e orgasmos, o que me deixou muito mais calma e relaxada para o parto.


O que eu posso afirmar é que a vida sexual de um casal durante a gravidez é algo muito particular e que, se não houver questões médicas impeditivas para o ato sexual, manter relações é benéfico para a mãe e para o bebê. A intimidade e o prazer vividos no sexo fazem com que a gestante libere endorfinas, que podem atravessar a placenta e chegar até o bebê, causando a sensação de relaxamento e tranquilidade para ambos. Além disso, a gestante se sente ainda mais poderosa e amada, a autoestima fica em alta e estas sensações são transmitidas para o feto. Porém, se o desejo sexual de uma mulher vai aumentar ou diminuir, isso ela só saberá quando engravidar, pois cada uma responde à gravidez de forma diferente.


A vez dos papais


E, para finalizar, um aviso muito importante aos futuros papais: você não vai machucar o bebê mesmo que seja super bem dotado! O feto não pode ser atingido pelo pênis durante a penetração por estar dentro do útero, um músculo bastante rígido, com até 5 centímetros de espessura, que impossibilitaria o contato. Além disso, o espesso tampão de muco que fecha o colo do útero ajuda a proteger contra possíveis infecções e o saco amniótico e os fortes músculos do útero também protegem o neném. Ou seja: desde que não haja risco de abortamento, sangramentos, descolamento de placenta ou qualquer outra contraindicação médica, vai fundo e seja feliz incluindo o sexo (em seu sentido amplo) na sua vida durante a gravidez.


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Clarissa Huguet é bacharel em Direito pela UERJ, Mestre em Direito Internacional com foco em Direitos Humanos pela Universidade de Utrecht (Holanda), Pós Graduada em Educação em Sexualidade pela UNISAL/SP e fundadora do Sexualize-se. Realizou trabalhos com mulheres de diferentes faixas etárias em situação de vulnerabilidade onde questões relacionadas à sexualidade feminina eram constantes.