• Laura Stoppa

Dating Around: a série da Netflix que mostra como os primeiros encontros são esquisitos

Acredito que os relacionamentos alheios provocam muita curiosidade nas pessoas. Natural querer saber o que realmente acontece naquele casamento ou namoro que você só vê pelo Instagram. A nova série Dating Around, original Netflix, coloca os espectadores para bisbilhotar os primeiros encontros de alguns casais. Lançada ontem - dia dos namorados nos EUA - eu assisti em uma tacada só porque é dinâmica, com episódios curtos e apenas viciante. Mesmo nos momentos em que eu achava ruim eu não conseguia parar de ver.


Foto: divulgação Netflix.

Em primeiro lugar, achei a ideia central ótima. Mesmo sendo uma produção para a TV e, portanto, obviamente mais artificial que a realidade, as câmeras conseguem captar bem as estranhezas de conhecer alguém pela primeira vez e tentar encontrar similaridades e estabelecer uma conexão um pouco mais profunda. Funciona assim: a cada episódio uma pessoa vai a cinco encontros às cegas. Depois, essa pessoa precisa escolher quem foi o melhor "date" para marcar um segundo encontro. Bem simples. E quem assiste ao reality é o "voyeur" de todos esses encontros.


A estrutura foi muito bem pensada, os lugares são incríveis, a fotografia e os movimentos de câmera são belíssimos e a série é ambientada em Nova York, majoritariamente no Brooklyn. Algumas coisas, no entanto, foram o que mais me chamaram a atenção quando refletimos sobre os encontros em si: a escolha das pessoas e as conversas que cada situação proporcionava.


Acho que a principal conquista de Dating Around é provocar uma série de sensações em quem está assistindo. Eu fui de vergonha alheia à torcida frenética passando por muitos momentos de irritação, frustração e "não acredito, socorro".


O ELENCO E AS CONVERSAS


Os escolhidos são bastante diversos e isso para mim é um ponto de acerto da série. Claramente eles quiseram colocar nos seis episódios a maior diversidade que conseguiram de seres humanos e eu acho que foi um sucesso em parte. Só não totalmente porque a meu ver faltam pessoas gordas e com deficiência - espero que incluam mais diversidades ainda numa eventual segunda temporada. O primeiro episódio, talvez de propósito, é o mais lugar-comum, para que você conheça a série e seu formato: ele acompanha um homem hétero branco de 27 anos e tem alguns dos maiores momentos de vergonha alheia da série toda.


No segundo episódio começa a ficar mais interessante: uma mulher também hétero, de origem indiana e divorciada, sai com cinco caras e eu fiquei apenas revoltada com um deles que a julgou o tempo todo. O final desse episódio é impagável. No terceiro, o protagonista é um homem gay e asiático - que se chama de "gaysian" - que sai com cinco caras interessantíssimos e muito diferentes entre si, o que deixa a gente muito em dúvida de quem ele vai escolher. Aliás, essa é a parte mais divertida: tentar adivinhar quem será escolhido para o segundo encontro.


Aqui as coisas ficam ainda mais interessantes porque começamos a comparar as conversas do terceiro episódio, entre casais homossexuais, e as dos dois anteriores, de casais heterossexuais. O que cada um fala num primeiro encontro? As questões étnicas aparecem de cara em alguns casais, demonstrando os choques culturais, mas o que mais me chamou a atenção no episódio 3 foram as histórias sobre "sair do armário" e assumir-se gay para a família - o que nos encontros hétero simplesmente não é uma questão a ser contada ou debatida.


Colocar essas situações lado a lado escancara o privilégio que é estar dentro da norma numa sociedade onde a heterossexualidade ainda é o considerado "normal".

O quarto episódio é o meu preferido porque acompanha um viúvo super carismático e traz questões sobre idade, perda, morte e esperança através dos olhos de uma outra geração que não a minha. Mas problema mesmo eu encontrei no quinto episódio: ele acompanha Sarah, uma mulher hétero e jovem, muito bonita, interessante, cantora de jazz e moradora há pouco tempo da cidade. Ela vai a cinco encontros com homens de diversas profissões, estilos, enfim, mesmo roteiro.


Foto: divulgação Netflix.

Estava na torcida por um dos pretendentes que achei o mais fofo da série toda quando percebi o que estava rolando no outro encontro dela: um babaca totalmente sem noção fazendo "piadas" que todas as mulheres novas que ficaram solteiras por algum tempo e foram a encontros já ouviram e precisaram aturar em algum momento. A situação fica desconfortável demais para assistir até que a reação de Sarah acontece - e é a mais elegante possível.


Outra coisa que me surpreendeu é como eles não escondem a curiosidade e falam tranquilamente sobre relacionamentos passados e sobre as dificuldades da vida de solteirice em Nova York.

No Brasil, isso poderia ser considerado inadequado - ficar falando sobre os "ex" (namorados, maridos, esposas) no primeiro encontro - justamente por suscitar tretas e cutucar o que já passou. Entretanto, é um assunto comum que faz parte da história de todo mundo, né? Achei bastante honesto nesse sentido.


O último episódio acompanha uma mulher lésbica e as conversas sobre aceitação e identificação como homossexual ressurgem e se expandem para os termos específicos utilizados pela comunidade - fem, butch, andróginas, etc. Ótimo para refletir sobre a necessidade que temos de nomear algo para que exista, num debate sobre rótulos e representatividade.


Foto: divulgação Netflix.

Em suma, Dating Around é uma oportunidade de saciar o voyeur que existe em você e analisar os dates alheios, as conversas, as posturas e, por que não?, aprender com tudo isso e refletir sobre os seus próprios relacionamentos. O que a princípio pode parecer superficial pode evocar discussões muito mais profundas sobre o ponto em comum de todas as personagens: a busca por uma conexão real, profunda e especial com outro ser humano. Um tema universal que merece nossa atenção.



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* Esse não é um post pago nem patrocinado pela Netflix.

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